O teu nome ainda me arrepia, a tua voz ainda ecoa nos meus ouvidos e o teu riso ainda faz estremecer o meu coração. Guardo-te aqui, neste lugar especial chamado de coração, onde tu encontraste um lugar para ti, onde te alojaste e ainda ponderas haver um espacinho para ti.
É tão difícil deixar-te, aceitar que houve alguém que chegou antes de mim e fez com que o nosso destino não fosse ficar juntos. Deixa que doa, deixa que doa tudo agora para que, um dia, seja mais fácil aceitar que tu não estás nem nunca vais estar. Se fosse hoje tinha-te pedido com jeitinho para não começares a escrever a nossa história em folhas soltas, para não abrires túneis que nos cruzam, para não me ligares à tua vida. Quem me dera nunca te ter conhecido, nunca ter visto esse olhar que guardas para mim, nunca ter sentido borboletas, nem saber que sentes o mesmo.
Não quero pensar em ti. Não quero saber onde estás. Não quero recordar tudo aquilo que já dissemos. Não quero sentir de novo todos os teus risos, todos os olhares, todo o amor me mandaste. Só te quero guardar num lugar onde eu não vou, num cofre do qual não tenho a chave, num frasco que não dá para abrir, no meu coração, sobretudo no meu coração.
Foi bom, foi tão bom voltar a sentir.
Risco-te da minha vida.
Podia acordar com esse bom dia, todos os dias. Há sentimentos que as palavras não descrevem, mas que o coração grava como se fosse aquele boost de energia que ele precisava para continuar a bater. Se sempre esperei ver-te lá, e não te fui encontrando por mais que procurasse, ver-te foi a maior surpresa daquele dia. Naquele momento, tudo valeu a pena, tudo fez sentido. Não importa se correu bem ou se correu mal, não importa se gostaste de me ver naquele papel ou não, o que importa é que me viste, feliz, sorridente, deslumbrante. Ainda bem que me encheram a alma e o ego de palavras doces, que me deram a certeza que tu não me deste. Afinal, nunca irei compreender-te, por mais que tente, por mais que te puxe para mim. Guardas contigo todas as palavras que eu gostava que tu dissesses e fazes-me acreditar que nunca pensaste nelas, esse teu silêncio, esse cuidado com tudo o que dizes. Ainda bem que há um de nós tão racional. Assim, há um caminho que fica sem saída e que me obriga a voltar para trás.
Obrigada. Por todas as palavras que não me disseste, por todos os desejos que guardaste para ti, por todas as mensagens que começaste a escrever à mesma velocidade que apagavas, pelas chamadas que deixaste por fazer, por todas as vezes em que desvalorizaste o que era feito por mim, pelas vezes em que fizeste questão de não estar presente, pela falta de atitude, por não dares preferência à minha presença, por não contares com a minha opinião, por nunca estares lá. Na verdade, tu não tens culpa, tu nunca me segredaste ao ouvido, eu é que pensei ter ouvido.
Fecho os olhos e trago-te para o meu sonho. Já que a realidade não nos une, deixa-me sonhar que um dia te tenho. Não há nada melhor que as borboletas que carrego na minha barriga e que me fazem rir todos os dias, afinal são cócegas de felicidade por um dia te ter conhecido. É de olhos fechados que te consigo dar a mão, sentir o teu cheiro, olhar-te nos olhos e sentir um abraço retribuído. Que abraço forte que, em tantos dias, me faz falta. Caminho ao teu lado, rio contigo, falo para ti como se fosses a minha cara metade, e mostras-me ao mundo como se eu fosse tua. Deste lado, não há nada que trave os nossos sentimentos de ser vividos. Não quero acordar, não te quero deixar desse lado, não quero não sentir borboletas. Contigo, nada mais importante senão a certeza de te ter.
Falta-me o ar, mas não me falta o amor. A barriga contrai-se e eu quero fugir, como se não estar ali fosse como não sentir. Encarar a realidade é demasiado forte para mim. Desvio o olhar e penso que o que os olhos não vêem, o coração não sente. E se olho, sinto como se o mundo se calasse, as pessoas desaparecessem e só estivéssemos nós ali. Não me fales com esses teus olhos que parecem tão próximos quando estão tão distantes. Não me ensines um caminho que não aquele que eu tracei. A vida já vai longa, as casas já bem construídas, e eu nunca fui boa a entrar pelas janelas. Se chegamos até aqui, conseguimos continuar, por caminhos diferentes e tão distantes quanto consigamos. São faíscas, são borboletas no estômago, é algo que não consigo explicar, e que guardo para mim como quem fecha um cofre. Tenho de deitar a chave ao mar, enterrá-la na areia e esperar que tudo se dilua junto dela.
É quando me deito na cama que percebo a falta que o amor me faz. Deitar e sentir um outro corpo ao meu lado, onde posso entrelaçar as nossas pernas e aproximar o corpo, muitas vezes juntar formando um S, ou sentir um beijo de até amanhã na testa. Mas não é uma despedida, ele vai ficar ali. Ele vai abraçar-nos nos pesadelos, e mandar-nos dormir nas noites de insónias, encostar-se quando o frio for maior e acordar-nos quando estiver na hora de pôr a pé. Vivemos para o amor, da nossa metade, das pessoas que nos deram ao mundo e daqueles que ainda vamos trazer para o mundo. Não há nada melhor que um coração confortado e um ouvido amigo em todas as horas. Nunca o trocaria pela solidão dos dias, as refeições sozinhas, a cama gelada e o silêncio das noites. No final, tudo se divide e somado tem ainda mais força, ainda mais amor, ainda mais união. E é tão boa a certeza de não estarmos sozinhos.